Sobre a Virada Cultural 2013


Aos meus amigos que não foram e para você que ficou com medo, após os problemas divulgados.

Sou um frequentador da Virada Cultural, fui em todas as edições (ok, talvez tenha perdido uma apenas…). E, apesar dos problemas, pretendo ir mais vezes a esse evento, que possibilita, ainda que por 24 horas, alguma apropriação do espaço urbano.

Existe uma crise (?) urbana, clara. Na metrópole, a apropriação nos é negada, todos os dias. Convertemo-nos em parte do fluxo diário do circuito de reprodução do Capital e as ruas fazem parte da nossa vida exclusivamente como o local onde pisamos, embora indiretamente. Sim, estamos sempre de passagem, dentro de nossos automóveis ou no transporte coletivo, este tão maltratado e mal usado.

Nossos espaços de sociabilidade pouco ou nada incluem a rua. E quando é o centro, a coisa se agrava. O urbanismo é uma violência em qualquer lugar do mundo, mas uma violência que muitas vezes aceitamos em prol de certa “civilidade” burguesa. Porém o urbanismo em São Paulo esconde, por trás do aparente caos, a perversidade da lógica de nossa desigualdade. O espaço é violentamente demarcado, constituindo áreas de segregação. O espaço quando não é utilizado como passagem, percorrido e não usado, é retalhado em enclaves fortificados para possibilitar o consumo ou o habitar moderno.

Pois bem: num contexto de apropriação rara, em detrimento do consumo, estar na rua sem ser de passagem ou sem estar mediado pela mercadoria passou a não fazer parte de nossas vidas. Nossas relações com os outros e com a cidade empobreceram, marcadas pelo tempo do relógio, e este marcando o ritmo da produção. E não falo das relações com o espaço, com os lugares, mas também com o outro. “O que queremos?”, como diz a tirinha famosa no Facebook, numa generalização típica de nossa modernidade, “JUST FUN”, responderia. Entretenimento, alívio. Lefebvre aponta que o cotidiano ocupou o lugar das colônias da Era Mercantil. Com isso, vem aprimorando a formação de gerações que leem mais, desde que seja a leitura de hypertextos; ouvem mais música, desde que seja jogando um videogame ou lendo um livro – sem saber identificar um contrabaixo; assistem mais filmes, desde que seja uma experiência rápida e que fique o gostinho de “quero mais” – sempre abastecido pelas franquias hollywoodianas. Formou-se uma geração de insatisfeitos: se pensarmos no desejo, como posto por Freud, mas inconformados, se pensarmos na ideia de revolução comunista, nos termos de Marx, e do cotidiano, nos termos Situacionistas. Ambas, praguejando contra a alienação.

Meu entorno? Não me importa. O Contexto? Repudio. Just fun baby, just fun.

No Centro de São Paulo, percebemos a luta por apropriação em vários de seus cantos, ruelas, becos. A luta pela moradia e a violência da propriedade contra essa luta. Prédios, centenários ou não, ocupados por gente da periferia do sistema: no Centro, eles estão na nossa cara. Até mesmo o urbanismo no centro proporcionou uma arquitetura um pouco mais humana, com calçadas, outrora utilizadas para os footings da elite, mais adequadas àqueles que querem andar a pé. Os motoristas de automóveis acabam respeitando mais os pedestres no dia a dia, talvez pelo medo da violência – será mesmo o Centro mais violento? – ou pela grande quantidade de usuários do transporte coletivo andando pelas ruas. Mas a apropriação do espaço ou mesmo um urbanismo mais humanista – se é que é possível – estão submetidos à circulação do capital e à reprodução das relações sociais de produção.

Tudo isso para dizer que eu estive na Virada Cultural de 2013, mais uma. Nessa, fui relutante, problemas pessoais e também a falta de entusiasmo de amigos colaboraram para que eu não quisesse ir esse ano, somado, é claro, pelo fato do meu gosto musical não ter sido muito atendido nesse ano. Problemas contornados, um casal de amigos empolgado – achava, e comprovou-se quando os encontramos – e resolvi ir.

Tive um celular furtado. Não percebi o furto, obviamente, embora saiba quando foi (“maldito” show do Sidney Magal, e nossas esposas nos achando intolerantes, não é mesmo). Vi brigas, como em qualquer evento desse porte. Sensação de violência no ar? Medo? Desejo de nunca mais voltar, “aquilo não é para mim”, coisa e tal.

Não.

Para mim ficou a ilusão, ou desejo, ou possibilidade (realizada, talvez) de apropriar-me do Centro. De dizer que as ruas são minhas. De assistir a um show pelo telão na praça Ramos, junto às figuras da madrugada, aos Napoleões da boemia dançando, mendigos dançando, hipsters da Zona Oeste dançando, juntos!

Sensação de tomar uma cerveja e bater um papo em plena Praça da República, com a galera passando, falando alto, curtindo, ouvindo música. Uma grande balada a céu aberto. Com tudo de bom e ruim que uma balada tem: corpos entrelaçados, mãos dadas, o sexo latente, o som e a loucura das luzes piscando, a alegria do álcool, a violência do álcool, pessoas que passam mal, pessoas que se excedem das mais diversas maneiras, a repressão da polícia, os trombadinhas.

TUDO.

Claro que preferia ainda ter meu celular (será). Claro que não concordo com as agressões e  mortes – e me solidarizo com a família das vítimas (uma, diga-se de passagem, foi por overdose o que, infelizmente, faz parte de qualquer balada… that´s rock´n´roll baby). Mas tudo foi menos violento que toda a lógica que nos impede a apropriação do espaço em/e de nosso cotidiano. Sim, ganhos e perdas. Eu perdi um celular. Um garoto perdeu a vida. Como acontece em todos os finais de semana nessa cidade, mas bem longe dos nossos narizes, em eventos que muitos de nós não participamos.

Fui muito feliz nessa madrugada, mesmo tendo visto o que não gostei, mesmo não tendo assistido nenhum muito marcante, memorável. Mas beber cerveja com amigos, andar com minha gata pelas ruas do centro: impagável. Não vacilarei da próxima. Nem com o celular, nem em pensar em ir ao evento.

Acho que a possibilidade de apropriação, ainda que momentânea, causa muito estranhamento, mais até que a diferença de classes. Que todos meus amigos venham ano que vem! Se não fizermos o “circuito” da Virada, que possamos aproveitar para usar as ruas de outra forma.

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Morrissey maduro: pessimismo sobre a vida moderna. A solução “falsa”: psicotrópicos… será?