O Futebol já era…

Podem dizer, meus amigos maldosos, que o título é apenas choro de torcedor, afinal, o tricolor não anda bem.

Mas calma, continue lendo que o chororô é maior, e não se restringe ao meu time.

O futebol, o institucionalizado, morreu. E não foi com Garrincha, Didi ou Pelé (não morreu de verdade. Mas como afirmou o grande Falcão, jogador morre duas vezes. Uma é quando aposenta, e esse é seu caso). Morreu quando o elã que unia os times à sua espacialidade foi quebrado. Os moleques, em alguns lugares, ainda jogam futebol na rua. Muitos ganham uma bola de presente e até dormem com ela. Tantos outros trabalhadores alugam quadras para jogar nos finais de semana ou de expediente. Mas o futebol como “Religião Leiga”, esse eu acho que acabou.

Antes, em todo lugar, mas sempre coletivo.

Toda generalização é injusta, claro: talvez trinta porcento (?) dos que se dizem torcedores são devotos de verdade a seus clubes. Ser torcedor é um estado de espírito que nos transforma em seres absolutamente irracionais. Sentimos medo, vergonha, raiva por uma simples partida de futebol.

Pois bem, tudo que é sólido…

O capitalismo avançou nos rincões dos territórios mas também das almas. O futebol tornou-se entretenimento. Mobiliza multidões, principalmente em frente a TV, mas também nos estádios. O torcedor de hoje, porém, gosta mesmo é de festa. Caso contrário, não teríamos médias de audiência tão baixa. E os apaixonados de verdade continuam ocupando espaço nos estádios, afinal, os estádios oferecem bem menos lugares do que o numero de pessoas que dizem torcer para o time.

Claro, em finais, lota, e ingresso vira artigo de luxo. Mas aí, o que conta é o hype, estar no local “histórico”, ver e ser visto, tirar uma selfie e guardar o canhoto do ingresso (recentemente descobri que há um comércio de canhotos de ingresso).

O futebol tornou-se um espetáculo, nos termos debordianos. Mas acredito que no Brasil essa cisão – o espetáculo é fragmentação –  está fortemente amarrada ao espaço. Não há relação dos clubes com o espaço cotidiano mais imediato – o lugar, o bairro, a rua, a cidade. O espaço – fragmentado e raro – não pertence mais ao indivíduo, exceto como mercadoria. Claro que há resistências, e os times da várzea estão aí para contar essa história. Mas, aparentemente, até a várzea sofre com esse desterramento que estamos passando.

Os times de futebol profissional com certeza passam por esse processo. Existe o apaixonado que criou alguma identidade com o time que, na maioria das vezes, não tem a ver com o espaço. Esse laço com o time de futebol envolve outras questões, mais relacionadas com a história da formação do indivíduo – sobretudo psíquica – do que propriamente social (evidente que o psíquico também é social, mas me refiro às instituições e instâncias menos íntimas que a família ou a escola).

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A paixão pelo futebol na Inglaterra ou na Alemanha, por exemplo, tem uma grande relação com o espaço e, consequentemente, com o coletivo (recomendo um belíssimo texto do Salman Rushidie que consta no livro Futebol: Paixão e Política, organizado por Paulo Cesar Carrano, editado pela DPeA). Os times ingleses estão ligados a bairros da Inglaterra e à tradição do operariado local (o que não impediu que ele se tornasse mercadoria e espetáculo, mas fez com que a 2a Divisão Inglesa tenha médias superiores a muitos campeonatos pelo mundo (O Brasil ficou atrás da 2a divisão de Alemanha e Inglaterra em 2014). Na Alemanha não é o time mais rico ou mais vencedor o que tem mais torcedores frequentando os estádios: O Borrussia Dortmund possui quase a metade dos torcedores do Bayern, mas lota seu estádio com 10000 torcedores a mais, em média. Ok, o estádio do Borrussia tem maior capacidade. Mas o terceiro colocado da lista é o Shalke 04, clube que não está nem entre os cinco primeiros em número de torcedores e não ganha nada há muito tempo.

Na Argentina, a paixão também tem relação histórica com os bairros e com a coletividade. Não bastasse isso, é muito comum vermos jogadores tatuados com seu clube de coração, mesmo nunca tendo atuado nele, jogando por outra agremiação. Mais comum ainda é vermos jogadores argentinos com grande sucesso na Europa que retornam aos seus clubes de coração por salários “mínimos”. Claro que já estão milionários. Mas emerge o torcedor: existem casos, como o de “La Bruja” Verón que, em fim de carreira, passou a doar seus salários para as categorias de base.

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Em todos esses países existem sindicatos atuantes, desde o histórico sindicato inglês, que já nos idos de 1909 já organizara greves, até o argentino que, vez por outra, realiza greves contra times que não arcam com seus salários (ver ótima matéria no site Impedimento http://impedimento.org/greves-do-futebol-um-breve-historico-latino-americano/).

Não há registros parecidos no Brasil, apenas alguns fatos isolados, e, mesmo assim, no período de transição do amadorismo para o profissionalismo. Um dia dedicarei um Post de um de meus ídolos, Fausto, jogador do Flamengo e Vasco, importante contestador desse período de exploração e exclusão no Brasil – dentro e fora de campo (hei de escrever uma biografia desse cara…)

Fausto: contestador

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Nosso campeonato é alimentado por torcedores de ocasião e por uma Mídia Esportiva que o trata como show. Eles estão corretos. É só entretenimento. Os jornalistas “críticos”, porém, só enxergam o futebol por esse viés e propõem mudanças que ampliem a exploração do futebol como mercadoria. Ora pois, penso eu, o que isso resolverá? Nada: nossa torcida é, em sua grande maioria, como os torcedores-turistas do Miami Heat (sim, esse pobre comunista gosta de NBA), aqueles que estão no ginásio para, como disse meu amigo Gerson, comer hambúrguer e tomar Cherry Coke, sem nenhuma pressa em voltar pro jogo durante o intervalo, tornando vazias as arquibancadas. Torcedores de ocasião.

Nesse sentido, acredito que o campeonato de pontos corridos favorece justamente esse torcedor fiel, o torcedor que sofre pelo time, e que gosta de ir ao estádio para ver um moleque novo das categorias de base, pra xingar algum medalhão metido a besta, e para… torcer. Esse que não gosta de tirar selfies em estádios. Claro que nesse tipo de campeonato eles também existem. Mas em jogos de eliminação em mata-matas, os torcedores de ocasião se multiplicam. Eles aparecem de longe, não sabem a escalação do time, mas estão lá ocupando um lugar que foi vendido pelo quíntuplo de seu preço (ou foi “dado” em alguma ação / puxasaquismo corporativo). E o torcedor fiel que não conseguiu comprar ingresso, vai abundar-se em sua poltrona e acompanhar pela rede monopolista todopoderosa que só mostrará o jogo após a novela…

O futebol como nossa expressão coletiva, morreu, a não ser como expressão corporativa. O futebol espetáculo é feito para pessoas de plástico – pessoas jurídicas. O futebol espetáculo, no Brasil, morreu também: continuará deficitário, será mote para desvios e lavagens de dinheiro (no mundo todo é assim, porém, conseguem ainda fazer bons espetáculos…) pois esse elã com as pessoas é frágil. O futebol no interior do Brasil é o maior exemplo: as pessoas adoram jogar futebol, mas muitos não topam apoiar o time da cidade, a cantilena de que quem está em campo está representando a cidade.

Só o Estado salva o futebol espetáculo, através da ideologia geográfica. Isso é papo pra outro dia…

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Sobre a Virada Cultural 2013


Aos meus amigos que não foram e para você que ficou com medo, após os problemas divulgados.

Sou um frequentador da Virada Cultural, fui em todas as edições (ok, talvez tenha perdido uma apenas…). E, apesar dos problemas, pretendo ir mais vezes a esse evento, que possibilita, ainda que por 24 horas, alguma apropriação do espaço urbano.

Existe uma crise (?) urbana, clara. Na metrópole, a apropriação nos é negada, todos os dias. Convertemo-nos em parte do fluxo diário do circuito de reprodução do Capital e as ruas fazem parte da nossa vida exclusivamente como o local onde pisamos, embora indiretamente. Sim, estamos sempre de passagem, dentro de nossos automóveis ou no transporte coletivo, este tão maltratado e mal usado.

Nossos espaços de sociabilidade pouco ou nada incluem a rua. E quando é o centro, a coisa se agrava. O urbanismo é uma violência em qualquer lugar do mundo, mas uma violência que muitas vezes aceitamos em prol de certa “civilidade” burguesa. Porém o urbanismo em São Paulo esconde, por trás do aparente caos, a perversidade da lógica de nossa desigualdade. O espaço é violentamente demarcado, constituindo áreas de segregação. O espaço quando não é utilizado como passagem, percorrido e não usado, é retalhado em enclaves fortificados para possibilitar o consumo ou o habitar moderno.

Pois bem: num contexto de apropriação rara, em detrimento do consumo, estar na rua sem ser de passagem ou sem estar mediado pela mercadoria passou a não fazer parte de nossas vidas. Nossas relações com os outros e com a cidade empobreceram, marcadas pelo tempo do relógio, e este marcando o ritmo da produção. E não falo das relações com o espaço, com os lugares, mas também com o outro. “O que queremos?”, como diz a tirinha famosa no Facebook, numa generalização típica de nossa modernidade, “JUST FUN”, responderia. Entretenimento, alívio. Lefebvre aponta que o cotidiano ocupou o lugar das colônias da Era Mercantil. Com isso, vem aprimorando a formação de gerações que leem mais, desde que seja a leitura de hypertextos; ouvem mais música, desde que seja jogando um videogame ou lendo um livro – sem saber identificar um contrabaixo; assistem mais filmes, desde que seja uma experiência rápida e que fique o gostinho de “quero mais” – sempre abastecido pelas franquias hollywoodianas. Formou-se uma geração de insatisfeitos: se pensarmos no desejo, como posto por Freud, mas inconformados, se pensarmos na ideia de revolução comunista, nos termos de Marx, e do cotidiano, nos termos Situacionistas. Ambas, praguejando contra a alienação.

Meu entorno? Não me importa. O Contexto? Repudio. Just fun baby, just fun.

No Centro de São Paulo, percebemos a luta por apropriação em vários de seus cantos, ruelas, becos. A luta pela moradia e a violência da propriedade contra essa luta. Prédios, centenários ou não, ocupados por gente da periferia do sistema: no Centro, eles estão na nossa cara. Até mesmo o urbanismo no centro proporcionou uma arquitetura um pouco mais humana, com calçadas, outrora utilizadas para os footings da elite, mais adequadas àqueles que querem andar a pé. Os motoristas de automóveis acabam respeitando mais os pedestres no dia a dia, talvez pelo medo da violência – será mesmo o Centro mais violento? – ou pela grande quantidade de usuários do transporte coletivo andando pelas ruas. Mas a apropriação do espaço ou mesmo um urbanismo mais humanista – se é que é possível – estão submetidos à circulação do capital e à reprodução das relações sociais de produção.

Tudo isso para dizer que eu estive na Virada Cultural de 2013, mais uma. Nessa, fui relutante, problemas pessoais e também a falta de entusiasmo de amigos colaboraram para que eu não quisesse ir esse ano, somado, é claro, pelo fato do meu gosto musical não ter sido muito atendido nesse ano. Problemas contornados, um casal de amigos empolgado – achava, e comprovou-se quando os encontramos – e resolvi ir.

Tive um celular furtado. Não percebi o furto, obviamente, embora saiba quando foi (“maldito” show do Sidney Magal, e nossas esposas nos achando intolerantes, não é mesmo). Vi brigas, como em qualquer evento desse porte. Sensação de violência no ar? Medo? Desejo de nunca mais voltar, “aquilo não é para mim”, coisa e tal.

Não.

Para mim ficou a ilusão, ou desejo, ou possibilidade (realizada, talvez) de apropriar-me do Centro. De dizer que as ruas são minhas. De assistir a um show pelo telão na praça Ramos, junto às figuras da madrugada, aos Napoleões da boemia dançando, mendigos dançando, hipsters da Zona Oeste dançando, juntos!

Sensação de tomar uma cerveja e bater um papo em plena Praça da República, com a galera passando, falando alto, curtindo, ouvindo música. Uma grande balada a céu aberto. Com tudo de bom e ruim que uma balada tem: corpos entrelaçados, mãos dadas, o sexo latente, o som e a loucura das luzes piscando, a alegria do álcool, a violência do álcool, pessoas que passam mal, pessoas que se excedem das mais diversas maneiras, a repressão da polícia, os trombadinhas.

TUDO.

Claro que preferia ainda ter meu celular (será). Claro que não concordo com as agressões e  mortes – e me solidarizo com a família das vítimas (uma, diga-se de passagem, foi por overdose o que, infelizmente, faz parte de qualquer balada… that´s rock´n´roll baby). Mas tudo foi menos violento que toda a lógica que nos impede a apropriação do espaço em/e de nosso cotidiano. Sim, ganhos e perdas. Eu perdi um celular. Um garoto perdeu a vida. Como acontece em todos os finais de semana nessa cidade, mas bem longe dos nossos narizes, em eventos que muitos de nós não participamos.

Fui muito feliz nessa madrugada, mesmo tendo visto o que não gostei, mesmo não tendo assistido nenhum muito marcante, memorável. Mas beber cerveja com amigos, andar com minha gata pelas ruas do centro: impagável. Não vacilarei da próxima. Nem com o celular, nem em pensar em ir ao evento.

Acho que a possibilidade de apropriação, ainda que momentânea, causa muito estranhamento, mais até que a diferença de classes. Que todos meus amigos venham ano que vem! Se não fizermos o “circuito” da Virada, que possamos aproveitar para usar as ruas de outra forma.