“Nada é orgânico, é tudo programado”

Toda vez que ouço essa música da Pitty, lembro-me de uma escola onde trabalhei – cujo nome não revelarei, mas era um trocadilho infame entre o nascer do Sol e o crescimento e desenvolvimento da criança – quando essa música “bombava”. Eram salas pequenas – cheguei a ter apenas um aluno em uma das classes – um dia contarei essa história, mas era bizarra – e havia uma 5ª série especial. Em primeiro lugar, por ser a sala mais cheia da escola – chegava aos 20 alunos, acho. Depois por que os alunos eram realmente interessantes, e destoavam um pouco dos demais, no que diz respeito à disciplina (ou falta de). Ao mesmo tempo, eram extremamente falantes, participativos e carinhosos. A sim, e mimados (quem não é…).

Havia um menino, baixinho e cabeludo, que todos apontavam como o mais problemático e mais abandonado. A figura dele remete-me a Mogly, o menino lobo: sempre lembro dele quando o assunto é essa mais que centenária história e, confesso, o garoto povoava minha imaginação quando li o texto de Freud o “Homem dos Lobos”.

Lembro dessa turma cantando a referida música do título, em especial esse trecho. E imitando a coreografia da Pitty no Clipe. A frase é muito forte: remete a um mundo – “Admirável Chip Novo” – em que a paranoia huxelyana se atualiza para um mundo de robôs e computadores.

Toda expressão do emocional é convertida a uma racionalidade alienada, uma vez que este é programado por outro, um terceiro.

“Aonde estão meus olhos de robô?”

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Bom, assustador – embora já desconfiássemos – o que o Barcinski postou em seu blog. Um tal de Dr. Luke é o maior produtor e compositor do mundo hoje. O cara está por trás dos maiores vendedores de discos dos últimos vinte anos. E o que mais assusta não é o fato de ele ter uma fórmula para compor músicas de sucesso, mas o fato dele controlar a carreira dos músicos de modo a extrair deles qualquer autonomia – na grande maioria dos casos.

A razão instrumental chega ao ponto de retirar dos indivíduos a capacidade de… raciocinar. E não apenas os ditos consumidores da música, mas também os que, supostamente, a produzem, os sujeitos das mesmas.

Claro, não é algo novo. É um processo. Os rapazes de Liverpool lá atrás tinham produtor e empresário. E as decisões eram tomadas de acordo com o mercado (o deus Mercado…). O Led Zeppelin foi uma banda montada por produtores para fazer sucesso – Jimmy Page já era um músico de estúdio de sucesso, além de ter participado de grandes bandas, assim como Robert Plant.

Backstreet Boys?

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A técnica de composição do Dr. Luke consiste, basicamente, em inserir “ganchos”, ou seja, momentos “memoráveis” da música, em ciclos curtos, ou seja, repetidamente, sem grande espaços entre eles. Por exemplo, o refrão não pode demorar a chegar. Barcinski coloca que esses ganchos são essenciais para atrair a geração de adolescentes atuais, que, citando pesquisas, “tem uma capacidade de atenção menor que a de um peixe de aquário”.

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Não vou entrar no mérito da pesquisa, mas algo interessante desse “método” do Dr. Luke é que ele se interliga a uma outra questão: à aceleração da realização do ciclo do capital, que aqui tomaremos em sua dimensão simbólica (não sei se esse termo está completamente correto, na verdade, mas pensarei nele melhor mais tarde) que é a da realização de ciclos de gozo.

A cada oito segundos – número indicado pelo blog citado – há um momento de gozo, de realização. Segue o seu oposto, ou seja, a falta, que nos impele a gozar mais. É assim que a música do Dr. Luke opera: na realização de ciclos de gozo. E não pode haver “interdição”: as longas introduções das músicas dos anos 80 (pegue o New Order, por exemplo, que trabalhava com música eletrônica) são como barricadas que impedem ao sujeito chegar ao que interessa: o sublime momento do refrão.

Ao mesmo tempo, as letras e melodias são simples a ponto de ser decorada. A experiência da música atual envolve ver e ser visto: e por isso mesmo, o refrão é uma forma de conectar-se a um mundo em que estamos atuando o tempo todo, mostrando que estamos ligados. Um mundo em que é preciso ser realizado e feliz o tempo todo, desde que assim pareçamos no Instagram e no Facebook. A comunicação ocorre, como já dissemos antes, apenas com quem concordamos: na discordância, a guerra, o debate agressivo.

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Não sei se orgânico é um termo correto, nem gosto muito. Mas a intenção é a oposição ao que é programado. Pelo visto, seja pelo viés das gerações que não aprenderam a / conseguem concentrar-se ou pelo ideia da criação dessa nova necessidade – a de ser feliz e completo o tempo todo – no capitalismo (e ambas conversam e não são excludentes), temos um mundo programado para a ampliação dos lucros de alguém, programando a vida das pessoas. Não que a música da Pitty seja algo muito especial, mas me parece que os meninos cantavam uma letra muito mais complicada de se lembrar. E sem ganchos.

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