O Chefe, o puxa-saco, e os surdos – De volta ao blog!!!

Depois de muito tempo, voltei.

As redes sociais imprimem um certa preguiça. De escrever, de sair de casa, de conversar. Claro que anunciam diversas possibilidades, em especial, às relativas ao encontro (!). As barreiras espaciais rompidas, proporcionando uma troca de informações amplificada por mil, milhões…

Mas creio que elas exacerbaram também o mal de nossa modernidade e o narcisismo de nossos tempos.

[Um aluno usou o termo narcisista para falar de um colega e, quando eu pedi para que definisse o termo ele disse: “quer dizer que ele se acha a última bolacha do pacote].

As conversar hoje são de surdos – e não me refiro a qualquer problema auditivo – ou seja, são incapazes de ouvir o outro. Aliás, o termo surdo foi mal empregado: ouve-se apenas a si mesmo.

Parece que, nas discussões, só queremos ouvir a nós mesmos, mesmo que refletido no outro.

Acha feio o que não é espelho

***

A culpa não é das redes sociais. Acho que elas só refletem o que vem ocorrendo, mas, como disse, amplia.

E mexe muito com nossas memórias afetivas… Amigos do passado, parentes que admirávamos na infância, mestres, enfim, as redes sociais nos permitem o reencontro e… a decepção. Depois da felicidade do reencontro e de compartilhar o que temos em comum – o passado -, a decepção ao perceber que a pessoa identifica-se com o espectro político oposto ao seu. E aí baixa o sociólogo que tem dentro de você e ouve-se um grito internamente: MAS COMO ESSE SUJEITO, COM A HISTÓRIA DE VIDA E SUA ORIGEM, PODE DEFENDER ISSO!!!

Nisso, sua pressão já está 14X10.

***

No dia de manifestações à favor do governo você usa vermelho sem querer. E só percebe isso às 16h00 por que alguém fez uma piada. Eita. Antes, você foi almoçar, e o papo corre solto. Motivo: as manifestações do domingo, contra o governo e pró Impeachment. Estou sem celular e, sem fone de ouvido. Preferia ouvir o Sardenberg (!) a ouvir o que estava rolando na mesa ao lado.

O Chefe diz, calmamente, que estará com sua bandeira no domingo. Todos param pra ouvir e concordam. E ele diz que não fara isso por ele, mas pelos jovens, pelos que virão. E lá vem o puxa-saco, mais jovem, óculos modernete, 30 anos no máximo, e começa a concordar com a posição do chefe, com um discurso pseudointelectualizado.

Disse o rapaz: “Não é que o PT tenha inventado a corrupção, mas a corrupção começa no Estado. E como o PT tende à centralização e à participação maior do Estado, vai haver mais corrupção em seu governo”. O chefe, não ouviu, pois continuo com seu discurso patriótico. Não ouviu pois continuou com comendo e bebendo sua cerveja. Mas o menino tem futuro.

A frase do rapaz mostra sua confiança no liberalismo. Sem problemas, é uma visão de mundo que eu considero equivocada, mas ela existe e pessoas a defendem. Pela minha formação, entendo como sendo contraditória à posição do rapaz na sociedade, mas ok. Não tecerei críticas.

Mas o que me encabulou no momento – além de ter elevado meus índices de pressão – foi o erro grosseiro cometido: a ideia do Estado como um outro que paira sobre nossas cabeças. E mais do que isso: o Estado (e o público) como o outro da Sociedade (e do Privado). Como aponta Nico Poulantzas: os sujeitos indivíduos, em suas classes, são “unificados na universalidade política do Estado-Nação”. O Estado conforme conhecemos é neutralizado pela ideologia-amálgama que “unifica” a sociedade, dando a entender que este é uma classe autônoma da sociedade, controlada apenas pelo partido que está no poder.

Ora, o Estado é representação da sociedade: o poder continua dominado por uma casta da sociedade, que o manipula para continuar no poder – político e econômico. Há, evidentemente, divisões entre as elites. Mas elas se “unem” quando “o bicho pega” e as bases de manutenção do poder de poucos sobre muitos ameaça ruir.
Evidente que o PT não representa ou representou nenhuma ruptura dessa sociedade. Pelo contrário: combinou bastante, em sua estratégia de hegemonia, com nossas elites, as mais arcaicas, inclusive.
Mas algo não “orna” com o PT: o mesmo empresariado que aparece contra o atual governo e compôs com o Governo Lula, é o que chorava durante o governo FHC pela deterioração do Parque Industrial brasileiro. Mesmo assim, nunca gritaram pela saída do então presidente. É preciso olhar para o Estado e enxergar-se em tudo.

As mulheres e mais humildes – ou pelo menos não tão eloquentes – da mesa ficaram lá, no seu canto, com suas opiniões. Falavam mais baixo, ou até falavam sobre outras coisas.

Não pode haver nenhuma rachadura.

***

Evidentemente que um blog não permite muitas trocas de ideias. Mas as trocas estão difíceis: em qualquer grupo que entro sou chamado de petista (NÃO SOU, sou de esquerda) e as pessoas se recusam a argumentar, com um mínimo de lógica, seus pontos de vista. Sendo assim, prefiro escrever no blog e postar no Facebook, apenas se alguém quiser saber,  realmente, minha opinião. Quem quiser trocar uma ideia, e tomar uma cerveja, mas disposto a argumentar sem “mimimi” e sem querer me ligar a qualquer partido, ok. O convite está feito.

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2 Respostas

  1. Bruno, legal o texto. Não sabia que vc tinha um blog. Sinceramente sempre achei vc petista além de esquerdista, é claro. Reformularei. Aceito a cerveja para discutir um ponto interessante no seu texto: porque um mesmo governo (de esquerda), pode ser tão diferente? Será porque Lula é um estadista , como alguns dizem? E a presidentA, longe disso.

    • Talvez Pablo. Agora veja a contradição: pra muitos, o Lula é “vendido” e “corrupto” por que negociou com diversos setores da sociedade; a Dilma não negocia com tais setores e é acusada de “ser azeda”, não ser boa política e não negociar. Pode?
      Quanto a eu ser petista, é óbvio que já contribuí com campanhas petistas (na época em que se comprava bótons e camisetas para angariar fundos) e já votei (e votei em Dilma no segundo turno). Mas sempre escrevi que não era. Como disse, é a tal conversa de surdos… Abraço.

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