O WC sumiu

Bom texto… apesar de ser da Barbara Gancia…

BARBARA GANCIA
COLUNISTA DA sãopaulo

Quem me frequenta neste espaço já pode ter percebido que mudei de ramo, que agora tenho outros interesses. Escrever coluna passou a ser secundário para mim.
Depois de reformar meu apartamento e fazer minha mudança, virei monotemática. Pessoa me pergunta como foi o jogo do Santos e eu desato a falar sobre os preços da Etna
versus a Tok&Stok.

E lá vou eu usar este espaço mais uma vez para falar sobre meu chatô e os temas que gravitam em torno dele. Por uma questão filosófica, a área de serviço do meu apartamento compreende apenas 1,50 x 2,30 m. Quarto de empregada inexiste, tratei de varrê-lo do mapa. Todo mundo que vem visitar faz questão de perguntar: “Onde você enfiou o quarto de empregada e o resto da área de serviço?”.

Ilustração Alex Cerveny/Folhapress

Lembro de uma amiga inglesa que veio passar férias na casa dos meus pais, há muitos anos, e questionou: “Como é que vocês aguentam viver com esse monte de estranhos dentro de casa?”.

De fato, é uma questão complexa conviver com “o inimigo de branco”. A patroa pode até achar seu relacionamento com a “gutcha” cordial. Claro, ela está no lado rosa-maravilha, no bem-bom, nunca deu meia hora de atenção ao assunto. Provavelmente quem se coloca na pele do trabalhador doméstico não vê a relação de forma tão amigável. E nem teria como fazê-lo, uma vez que ser desvalorizado profissionalmente por princípio não deve ser assim tão agradável, bem como ter bonificações pagas em afeto raramente enche barriga.

É claro que existem patroas excelentes, mas se eu fosse obrigada a ir para a Folha de avental de rendinha e sapatinhos moleca, quem sabe eu não pensasse numa parada estratégica na Bayard para a compra de uma pistola automática antes de chegar à al. Barão de Limeira?

Elevadores de serviço ofendem a dignidade humana. Sabemos que eles só deveriam ser usados por cães molhados e carga pesada. Pois a despeito de decretos e tentativas de mudança de hábito continuamos a insistir no seu uso. E se fosse só o elevador ainda haveria esperança de salvar a espécie tapuia. Acontece que tem também o banheiro, o talher e a comida que a gente se recusa a dividir com quem faz todo o serviço dentro da nossa casa. O filme “The Help”, que ganhou um par de Globos de Ouro no outro domingo, mostra como era a discriminação contra o serviço doméstico nos EUA nos anos 60. Assista e morra de vergonha do Brasil 2012.

Conheço gente que ainda regula a quantidade de biscoitos que a empregada come. Pessoa tem SUV, viaja ao exterior duas vezes ao ano, possui três bolsas Hermès e acha normal fiscalizar o que o serviçal manda para dentro.

E ainda pontifica dizendo que empregada que quer trocar casa de família por emprego em empresa é burralda, pois vai abrir mão de comida e teto gratuitos. Queria ver quem troca sua liberdade por morar de favor no quarto de pigmeu da casa de alguém, sem ter plano de carreira e de saúde ou fim de semana.

Na minha casa não tem banheiro de empregada. O fato suscitou curiosidade na primeira reunião de condomínio de que participei no prédio novo. Como minha explicação inicial não satisfez, tratei de reformular a argumentação: “Minha empregada já vem cagada de casa”. Achei mais fácil simplificar. Em outra oportunidade eu explico melhor.

http://www1.folha.uol.com.br/saopaulo/1037405-o-wc-sumiu.shtml

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