José de Alencar agora herói.

“Ele foi um guerreiro” ou “Coitado, que pena”. No dia da morte do ex-vice presidente da República brasileira ( e nos dias seguintes, até a mídia ter outra coisa para dizer nos noticiários, quase que em uníssono entre todos os veículos), quantas vezes não ouvimos frases como iguais ou semelhantes a essas?

Da primeira vez que ouvi, de súbito gritei: “Coitado o c…”, abruptamente, causando, para variar, o espanto de todos. Confesso ter em mim, por motivos familiares, pouco apreço pelos figurões que, à beira da morte, são quase laureados pela opinião pública ou são “mimados” por personalidades da medicina. Ou ainda, recebem tratamentos revolucionários sem qualquer burocracia: mal a pesquisa sai do forno, eles já tem sua aplicação garantida.

Em minha vida, alguns desses casos me marcaram.

Um foi o Senna. Tinha meus 15 anos quando, já comunista “convicto”, comecei, entre outras coisas, a frequentar o PC do B. Claro, durou duas ou três reuniões, pois o partido já demonstrava ser o que é hoje: uma organização burocrática que privilegiava a “boquinha” e corporativismo babaca (continuo comunista, por isso defendo que o PC do B tire o C no nome, em especial em tempos de Orlando Silva, Agnello Queiroz, Aldo Rebelo e Netinho de Paula. O grande João Amazonas deve se revirar no túmulo. E não me venham falar de Gramsci, por favor… Não ofendam a memória de mais um. O que este partido está fazendo no governo é safadeza. Virou o PP da esquerda). Para meu espírito esquerdista, era OBRIGATÓRIO ser do contra às grandes manifestações midiáticas – e portanto de ideológicas. A morte de Senna foi um prato cheio.

Primeiramente, utilizei das críticas niilistas: as piadinhas. Sim, pois o escracho de hoje em dia, apropriado pelos NeoCons (Casseta e Planeta e CQC’s da vida) revelam conteúdos extremamente conservadores. Mas também contém conteúdos importantes, como certa revolta. Acho que muitos que vão assistir às Stand-up Comedies vão atrás de ouvir uma crítica que –pelo menos no nível da aparência – não se apeque a nada, assim como ele. Não vou ficar repetí-las, mas o palco privilegiado dos gracejos era na sala de aula, durante as aulas de química da inesquecível Edininha (onde anda o Rafael?).

Com minha amiga Debora Milone, a crítica séria, comunista. Assistíamos televisão e falávamos ao telefone ou ao vivo sobre o quão ridículo era tudo aquilo. Que farsa, que bobagem. A cidade parou naquele dia para homenagear alguém que… para, encheu a burra de tanto dinheiro e o colocamos como grande defensor do Brasil? Ok, não vou repetir as críticas aqui.

Outro foi o Mário Covas. Esse senhor iniciou a trajetória tucana em São Paulo. Foi reeleito numa eleição em que as PESQUISAS venceram a esperança (na época a Marta era sim uma esperança) e depois a mediocridade (voto no Covas) venceu o Medo (Maluf). Votei nulo. Fez governos mediocres e, graças à morte por câncer, foi elevado ao status de baita governante e símbolo. Fez uma gestão péssima em educação – foi pior que o Alkimin, inclusive. Considerado honesto por todos – e o Rodoanel? E a Vetex? – morreu com um dos maiores infectologistas (?) do mundo, o Sr. David Uip, segurando a sua mão. Se eu tiver câncer (toc, toc, toc) com 40 anos (de novo, toc, toc, toc) o senhor vai segurar minha mão? Não. Provavelmete será um estagiário playboyzinho que, entre mensagens e tuitadas em seu Blackberry avisará minha família para se despedir de mim.

José de Alencar foi muito importante nos últimos 8 anos. Foi o cara que assinou com Lula um compromisso de mudança (conservadora, mas mudança de esquerda, ainda que ao centro) do país. E afastou sim a desconfiança do eleitorado mais conservador. Uma parte votou em Lula. E se este teve penetração em Minas Gerais, segundo colégio eleitoral do país, muito foi por conta de Alencar. Mas, guerreiro? Hora, é fácil quando se tem dinheiro enfrentar qualquer dinheiro. É fácil receber novos tratamentos e passar horas em cirurgias. Quem morre rapidamente é covarde? Ou por que muitas vezes é melhor “descansar” da série de maus tratos sofridos nas redes públicas e privadas de saúde?

Será que enfrentar a morte dignamente, no cotidiano, enfrentando os perigos e dissabores da existência, não nos torna guerreiros?

Mais uma vez, ideologia que a classe média compra. E se entorpece.

 

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