São Paulo FC, Jogo 1 da Era Ceni

 

Bom, não poderia ser uma estréia pior.

Como se fora escolhida a dedo, o Tricolor enfrentou um adversário muito difícil para um time que está começando e para um time que está implantando um trabalho novo. A disposição tática do São Paulo foi, de certa forma, quase que espelhada em relação ao Audax, pelo menos teoricamente. Mas não nos esqueçamos: o adversário está com o mesmo treinados há quatro anos e esses jogadores já estão com ele, em sua maioria, há algum tempo.

Não tinha como dar certo.

Ao contrário do que o treinador espera (e prometera, como vimos nos amistosos), a marcação não foi compacta e implacável. Um time compacto pressupõe que suas linhas de (defesa, meio-campo e ataque) estejam próximas e que tenham mobilidade suficiente para avançar ou recuar de acordo com o momento ofensivo ou defensivo.

Vejamos esse lance, congelado (perdão, mas não tive tempo de editar, desenhar as marcações ou cortar a imagem. Acontece que hoje será o segundo jogo e queria escrever sobre isso antes…):

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O Audax está com dez jogadores defendendo. Não é uma retranca Buzzetiana, ao contrário. É futebol intenso e bem jogado. O Tricolor, por sua vez, tem sete jogadores (Bruno não aparece aqui, mas está na direita, na altura em que está o Tiago Mendes). Apesar da verticalidade, da procura constante ao gol – outro aspecto da filosofia Ceni e também de Diniz – há uma afobação e a jogada é concluída com W.Nem (ótimo jogador, por sinal) que é tocado fora da área (não houve falta marcada).

Aqui o São Paulo entra no jogo do Audax, que rouba a bola e sai para o contra ataque. Antes de mostrar o gol do adversário, vamos entender esse ataque. A bola poderia/deveria rodar um pouco mais para abrir o time do Audax. Ou ainda, a busca de triangulações com os laterais e meias abertos seria uma alternativa para espaçar a defesa barueriense e alguém penetrar pelo meio ou fazendo a diagonal oposta. Nosso meia aberto pela direita, W.Nem afunilou e recebeu a bola pelo meio e recebe a falta (ou tem a bola tomada, como interpretou o juíz. Independente disso, olha como o Audax sufoca quem está com a bola, tirando as opções de Tiago Mendes. Nem, por sua vez, tem dois jogadores fechando, caso ele tentasse a jogada:

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Pouquíssimo tempo de jogo, no momento. Essa é uma virtude do tricolor 2017: procurar sempre o gol. Depois voltaremos às virtudes.

O Gol do Audax saiu, houve uma falha coletiva na defesa, mas com destaque para Buffarini e Douglas. Contudo, temos aspectos coletivos importantes a apontar.

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Percebam a distância entre os volantes. Claro, estamos falando de um contra ataque. Mas onde está a compactação que o Rogério quer? Esse gol, iniciado nesse lance, devemos, todavia, creditar a erros individuais. Mas onde estavam, na continuidade do lance, os dois meias abertos que deveriam acompanhar e apoiar a defesa?

E daí entra o aspecto psicológico no Tricolor: da mesma forma que ocorria no ano passado, quando um companheiro erra (Buffa e Douglas) não tem ninguém para corrigir, pelo contrário, o time se abala e comete erros bobos em sequência, até o adversário fazer o gol.

No segundo gol, o adversário veio tocando a bola. Onde estava a compactação aqui:

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Pelas beiradas os jogadores livres. Onde estava o menino Araújo para fechar? E o posicionamento dos volantes. A bola está com o 7 deles, Caio e Tiago estão atrás, um pouco longe do lance, ainda chegando… Sobra ao jogador deles várias opções e ele escolhe tocar de calcanhar para o meia/volante Carmona tocar para o nove que devolve para ele de calcanhar para poder vencer a meta de Sidão:

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O Caio estava onde? Correndo atrás do Carmona. Tiago marca o juíz.

Bom, não vou esmiuçar as jogadas do São Paulo e as demais jogadas do Audax. A escalação é anunciada para o próximo jogo. Mas o que eu quero dizer é que o time ainda está se adaptando para uma mudança de posicionamento em campo mas também de intensidade. Se o time não funcionar como um todo, como um relógio e intensamente, seremos o mesmo time do ano passado, Ceni será demitido, e teremos um técnico tradicional retranqueiro ou ególatra para nos comandar.

Ceni precisará de tempo. Eu acho que em dez jogos poderemos julgá-lo melhor. O time não é tão ruim (ficará bom com Pratto e Jucilei). Mas é preciso que ele tome as rédeas agora e foque os erros cometidos pelo time (e por ele, em minha opinião, ao escalar Caio como volante. Perdemos nosso melhor zagueiro, craque da posição,  e ficaríamos com um volante… bom apenas.

Saudações tricolores.

 

 

 

 

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Professores de Todo o Mundo, Uni-vos!

Nunca antes na história de país vimos tamanha degradação em nossa profissão. Professores mal formados, pouco dispostos a trabalhar ou a fazer um bom trabalho ou a contribuir para mudar as coisas.

Pára.

O estado de miséria do professor é tamanho hoje que qualquer crítica desse nível deve ficar, infelizmente, em segundo plano.

Pois sim, criticas a nosso trabalho e a nossa formação devem ser feitas. Nossas escolas precisam mudar e não sei se os professores estão preparados para isso. Talvez estejamos presos a um certa inércia.

Mas nada disso interessa. Fomos jogados ao lixo da historia, a escoria da sociedade.

E não foi por que  jogaram cachorros sobre nós (sim, querido professor, eles, no Paraná, somos nos, seja você do Ensino Fundamental, médio, Infantil ou Superior; técnico, graduado, mestre ou doutor; da escola publica ou particular). Mas por que fomos usurpados de qualquer papel reflexivo sobre a educação. Não participamos de nada que diga respeito a mudar a escola. Alem disso, fomos jogados a vala da miséria econômica, com salários de fome, mas também a salas de aula lotadas, a escolas sucateadas e sem segurança, sem material básico para trabalhar.

Não, a questão da violência não e por conta da punição. O problema não pode ser falta de policiamento, mas a pouca capacidade emocional, intelectual e técnica que vivemos hoje de compreender coletivamente a escola de hoje. Se quiser conhecer a escola, eu que busque a academia, que faca um mestrado ou doutorado que vá para estantes de universidades.

Fomos relegados ao que há de pior da divisão social do trabalho: simples montadores de pecas, em que no máximo usamos manuais de instrução. Contudo, nossos produtos, os alunos, não querem ser montados – ainda bem.

Para nos sobra a miséria moral, econômica e a frustração de não sermos nada, não querermos ser nada. Talvez sonhar. Mas quando, com jornada longa e levando trabalho pra casa?

E não diga que escolhemos: eu escolhi e me dei bem, gosto do que faço e tenho boas condições de trabalho. Agora eu pergunto: em nossos sonhos relacionados à profissão, nele incluímos seus problemas?

Essa sociedade, parte dela, cala-se frente aos professores e aos comentaristas e revistas que não mencionam o grave ocorrido. Mas bate panela durante programa do PT na TV. Sério? Que tal batermos palmas a todos os professores em greve, ao invés de lhes darmos somente a indiferença?

“Nada é orgânico, é tudo programado”

Toda vez que ouço essa música da Pitty, lembro-me de uma escola onde trabalhei – cujo nome não revelarei, mas era um trocadilho infame entre o nascer do Sol e o crescimento e desenvolvimento da criança – quando essa música “bombava”. Eram salas pequenas – cheguei a ter apenas um aluno em uma das classes – um dia contarei essa história, mas era bizarra – e havia uma 5ª série especial. Em primeiro lugar, por ser a sala mais cheia da escola – chegava aos 20 alunos, acho. Depois por que os alunos eram realmente interessantes, e destoavam um pouco dos demais, no que diz respeito à disciplina (ou falta de). Ao mesmo tempo, eram extremamente falantes, participativos e carinhosos. A sim, e mimados (quem não é…).

Havia um menino, baixinho e cabeludo, que todos apontavam como o mais problemático e mais abandonado. A figura dele remete-me a Mogly, o menino lobo: sempre lembro dele quando o assunto é essa mais que centenária história e, confesso, o garoto povoava minha imaginação quando li o texto de Freud o “Homem dos Lobos”.

Lembro dessa turma cantando a referida música do título, em especial esse trecho. E imitando a coreografia da Pitty no Clipe. A frase é muito forte: remete a um mundo – “Admirável Chip Novo” – em que a paranoia huxelyana se atualiza para um mundo de robôs e computadores.

Toda expressão do emocional é convertida a uma racionalidade alienada, uma vez que este é programado por outro, um terceiro.

“Aonde estão meus olhos de robô?”

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Bom, assustador – embora já desconfiássemos – o que o Barcinski postou em seu blog. Um tal de Dr. Luke é o maior produtor e compositor do mundo hoje. O cara está por trás dos maiores vendedores de discos dos últimos vinte anos. E o que mais assusta não é o fato de ele ter uma fórmula para compor músicas de sucesso, mas o fato dele controlar a carreira dos músicos de modo a extrair deles qualquer autonomia – na grande maioria dos casos.

A razão instrumental chega ao ponto de retirar dos indivíduos a capacidade de… raciocinar. E não apenas os ditos consumidores da música, mas também os que, supostamente, a produzem, os sujeitos das mesmas.

Claro, não é algo novo. É um processo. Os rapazes de Liverpool lá atrás tinham produtor e empresário. E as decisões eram tomadas de acordo com o mercado (o deus Mercado…). O Led Zeppelin foi uma banda montada por produtores para fazer sucesso – Jimmy Page já era um músico de estúdio de sucesso, além de ter participado de grandes bandas, assim como Robert Plant.

Backstreet Boys?

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A técnica de composição do Dr. Luke consiste, basicamente, em inserir “ganchos”, ou seja, momentos “memoráveis” da música, em ciclos curtos, ou seja, repetidamente, sem grande espaços entre eles. Por exemplo, o refrão não pode demorar a chegar. Barcinski coloca que esses ganchos são essenciais para atrair a geração de adolescentes atuais, que, citando pesquisas, “tem uma capacidade de atenção menor que a de um peixe de aquário”.

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Não vou entrar no mérito da pesquisa, mas algo interessante desse “método” do Dr. Luke é que ele se interliga a uma outra questão: à aceleração da realização do ciclo do capital, que aqui tomaremos em sua dimensão simbólica (não sei se esse termo está completamente correto, na verdade, mas pensarei nele melhor mais tarde) que é a da realização de ciclos de gozo.

A cada oito segundos – número indicado pelo blog citado – há um momento de gozo, de realização. Segue o seu oposto, ou seja, a falta, que nos impele a gozar mais. É assim que a música do Dr. Luke opera: na realização de ciclos de gozo. E não pode haver “interdição”: as longas introduções das músicas dos anos 80 (pegue o New Order, por exemplo, que trabalhava com música eletrônica) são como barricadas que impedem ao sujeito chegar ao que interessa: o sublime momento do refrão.

Ao mesmo tempo, as letras e melodias são simples a ponto de ser decorada. A experiência da música atual envolve ver e ser visto: e por isso mesmo, o refrão é uma forma de conectar-se a um mundo em que estamos atuando o tempo todo, mostrando que estamos ligados. Um mundo em que é preciso ser realizado e feliz o tempo todo, desde que assim pareçamos no Instagram e no Facebook. A comunicação ocorre, como já dissemos antes, apenas com quem concordamos: na discordância, a guerra, o debate agressivo.

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Não sei se orgânico é um termo correto, nem gosto muito. Mas a intenção é a oposição ao que é programado. Pelo visto, seja pelo viés das gerações que não aprenderam a / conseguem concentrar-se ou pelo ideia da criação dessa nova necessidade – a de ser feliz e completo o tempo todo – no capitalismo (e ambas conversam e não são excludentes), temos um mundo programado para a ampliação dos lucros de alguém, programando a vida das pessoas. Não que a música da Pitty seja algo muito especial, mas me parece que os meninos cantavam uma letra muito mais complicada de se lembrar. E sem ganchos.

O Futebol já era…

Podem dizer, meus amigos maldosos, que o título é apenas choro de torcedor, afinal, o tricolor não anda bem.

Mas calma, continue lendo que o chororô é maior, e não se restringe ao meu time.

O futebol, o institucionalizado, morreu. E não foi com Garrincha, Didi ou Pelé (não morreu de verdade. Mas como afirmou o grande Falcão, jogador morre duas vezes. Uma é quando aposenta, e esse é seu caso). Morreu quando o elã que unia os times à sua espacialidade foi quebrado. Os moleques, em alguns lugares, ainda jogam futebol na rua. Muitos ganham uma bola de presente e até dormem com ela. Tantos outros trabalhadores alugam quadras para jogar nos finais de semana ou de expediente. Mas o futebol como “Religião Leiga”, esse eu acho que acabou.

Antes, em todo lugar, mas sempre coletivo.

Toda generalização é injusta, claro: talvez trinta porcento (?) dos que se dizem torcedores são devotos de verdade a seus clubes. Ser torcedor é um estado de espírito que nos transforma em seres absolutamente irracionais. Sentimos medo, vergonha, raiva por uma simples partida de futebol.

Pois bem, tudo que é sólido…

O capitalismo avançou nos rincões dos territórios mas também das almas. O futebol tornou-se entretenimento. Mobiliza multidões, principalmente em frente a TV, mas também nos estádios. O torcedor de hoje, porém, gosta mesmo é de festa. Caso contrário, não teríamos médias de audiência tão baixa. E os apaixonados de verdade continuam ocupando espaço nos estádios, afinal, os estádios oferecem bem menos lugares do que o numero de pessoas que dizem torcer para o time.

Claro, em finais, lota, e ingresso vira artigo de luxo. Mas aí, o que conta é o hype, estar no local “histórico”, ver e ser visto, tirar uma selfie e guardar o canhoto do ingresso (recentemente descobri que há um comércio de canhotos de ingresso).

O futebol tornou-se um espetáculo, nos termos debordianos. Mas acredito que no Brasil essa cisão – o espetáculo é fragmentação –  está fortemente amarrada ao espaço. Não há relação dos clubes com o espaço cotidiano mais imediato – o lugar, o bairro, a rua, a cidade. O espaço – fragmentado e raro – não pertence mais ao indivíduo, exceto como mercadoria. Claro que há resistências, e os times da várzea estão aí para contar essa história. Mas, aparentemente, até a várzea sofre com esse desterramento que estamos passando.

Os times de futebol profissional com certeza passam por esse processo. Existe o apaixonado que criou alguma identidade com o time que, na maioria das vezes, não tem a ver com o espaço. Esse laço com o time de futebol envolve outras questões, mais relacionadas com a história da formação do indivíduo – sobretudo psíquica – do que propriamente social (evidente que o psíquico também é social, mas me refiro às instituições e instâncias menos íntimas que a família ou a escola).

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A paixão pelo futebol na Inglaterra ou na Alemanha, por exemplo, tem uma grande relação com o espaço e, consequentemente, com o coletivo (recomendo um belíssimo texto do Salman Rushidie que consta no livro Futebol: Paixão e Política, organizado por Paulo Cesar Carrano, editado pela DPeA). Os times ingleses estão ligados a bairros da Inglaterra e à tradição do operariado local (o que não impediu que ele se tornasse mercadoria e espetáculo, mas fez com que a 2a Divisão Inglesa tenha médias superiores a muitos campeonatos pelo mundo (O Brasil ficou atrás da 2a divisão de Alemanha e Inglaterra em 2014). Na Alemanha não é o time mais rico ou mais vencedor o que tem mais torcedores frequentando os estádios: O Borrussia Dortmund possui quase a metade dos torcedores do Bayern, mas lota seu estádio com 10000 torcedores a mais, em média. Ok, o estádio do Borrussia tem maior capacidade. Mas o terceiro colocado da lista é o Shalke 04, clube que não está nem entre os cinco primeiros em número de torcedores e não ganha nada há muito tempo.

Na Argentina, a paixão também tem relação histórica com os bairros e com a coletividade. Não bastasse isso, é muito comum vermos jogadores tatuados com seu clube de coração, mesmo nunca tendo atuado nele, jogando por outra agremiação. Mais comum ainda é vermos jogadores argentinos com grande sucesso na Europa que retornam aos seus clubes de coração por salários “mínimos”. Claro que já estão milionários. Mas emerge o torcedor: existem casos, como o de “La Bruja” Verón que, em fim de carreira, passou a doar seus salários para as categorias de base.

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Em todos esses países existem sindicatos atuantes, desde o histórico sindicato inglês, que já nos idos de 1909 já organizara greves, até o argentino que, vez por outra, realiza greves contra times que não arcam com seus salários (ver ótima matéria no site Impedimento http://impedimento.org/greves-do-futebol-um-breve-historico-latino-americano/).

Não há registros parecidos no Brasil, apenas alguns fatos isolados, e, mesmo assim, no período de transição do amadorismo para o profissionalismo. Um dia dedicarei um Post de um de meus ídolos, Fausto, jogador do Flamengo e Vasco, importante contestador desse período de exploração e exclusão no Brasil – dentro e fora de campo (hei de escrever uma biografia desse cara…)

Fausto: contestador

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Nosso campeonato é alimentado por torcedores de ocasião e por uma Mídia Esportiva que o trata como show. Eles estão corretos. É só entretenimento. Os jornalistas “críticos”, porém, só enxergam o futebol por esse viés e propõem mudanças que ampliem a exploração do futebol como mercadoria. Ora pois, penso eu, o que isso resolverá? Nada: nossa torcida é, em sua grande maioria, como os torcedores-turistas do Miami Heat (sim, esse pobre comunista gosta de NBA), aqueles que estão no ginásio para, como disse meu amigo Gerson, comer hambúrguer e tomar Cherry Coke, sem nenhuma pressa em voltar pro jogo durante o intervalo, tornando vazias as arquibancadas. Torcedores de ocasião.

Nesse sentido, acredito que o campeonato de pontos corridos favorece justamente esse torcedor fiel, o torcedor que sofre pelo time, e que gosta de ir ao estádio para ver um moleque novo das categorias de base, pra xingar algum medalhão metido a besta, e para… torcer. Esse que não gosta de tirar selfies em estádios. Claro que nesse tipo de campeonato eles também existem. Mas em jogos de eliminação em mata-matas, os torcedores de ocasião se multiplicam. Eles aparecem de longe, não sabem a escalação do time, mas estão lá ocupando um lugar que foi vendido pelo quíntuplo de seu preço (ou foi “dado” em alguma ação / puxasaquismo corporativo). E o torcedor fiel que não conseguiu comprar ingresso, vai abundar-se em sua poltrona e acompanhar pela rede monopolista todopoderosa que só mostrará o jogo após a novela…

O futebol como nossa expressão coletiva, morreu, a não ser como expressão corporativa. O futebol espetáculo é feito para pessoas de plástico – pessoas jurídicas. O futebol espetáculo, no Brasil, morreu também: continuará deficitário, será mote para desvios e lavagens de dinheiro (no mundo todo é assim, porém, conseguem ainda fazer bons espetáculos…) pois esse elã com as pessoas é frágil. O futebol no interior do Brasil é o maior exemplo: as pessoas adoram jogar futebol, mas muitos não topam apoiar o time da cidade, a cantilena de que quem está em campo está representando a cidade.

Só o Estado salva o futebol espetáculo, através da ideologia geográfica. Isso é papo pra outro dia…

Antônio Prata

“inegável que há muita coisa podre em Brasília -e em São Paulo, no Rio, em Birigui e em Santa Rita do Passa Quatro. Somos um país corrupto, da quitanda ao agrobusiness. O petrolão, contudo, está sendo investigado. O Ministério Público é independente. A imprensa é livre -livre, inclusive, para ter o rabo preso com quem bem entende.

Veja: após o mensalão, o presidente do PT, o tesoureiro e o ministro da Casa Civil foram julgados pelo STF (um colegiado cuja maioria foi indicada durante os anos petistas) e mandados pra cadeia. Se isso é a “venezuelização” do Brasil, não precisamos mais nos preocupar com a Venezuela.

Protestos contra o governo são justos e não só dor de cotovelo da “elite branca”, mas enquanto não houver provas que envolvam a presidente com a corrupção, qualquer um que falar em impeachment não passará, como disse há 16 anos nosso grande cronista, de um “moleque”. “

Da Falha de São Paulo de hoje.

O Chefe, o puxa-saco, e os surdos – De volta ao blog!!!

Depois de muito tempo, voltei.

As redes sociais imprimem um certa preguiça. De escrever, de sair de casa, de conversar. Claro que anunciam diversas possibilidades, em especial, às relativas ao encontro (!). As barreiras espaciais rompidas, proporcionando uma troca de informações amplificada por mil, milhões…

Mas creio que elas exacerbaram também o mal de nossa modernidade e o narcisismo de nossos tempos.

[Um aluno usou o termo narcisista para falar de um colega e, quando eu pedi para que definisse o termo ele disse: “quer dizer que ele se acha a última bolacha do pacote].

As conversar hoje são de surdos – e não me refiro a qualquer problema auditivo – ou seja, são incapazes de ouvir o outro. Aliás, o termo surdo foi mal empregado: ouve-se apenas a si mesmo.

Parece que, nas discussões, só queremos ouvir a nós mesmos, mesmo que refletido no outro.

Acha feio o que não é espelho

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A culpa não é das redes sociais. Acho que elas só refletem o que vem ocorrendo, mas, como disse, amplia.

E mexe muito com nossas memórias afetivas… Amigos do passado, parentes que admirávamos na infância, mestres, enfim, as redes sociais nos permitem o reencontro e… a decepção. Depois da felicidade do reencontro e de compartilhar o que temos em comum – o passado -, a decepção ao perceber que a pessoa identifica-se com o espectro político oposto ao seu. E aí baixa o sociólogo que tem dentro de você e ouve-se um grito internamente: MAS COMO ESSE SUJEITO, COM A HISTÓRIA DE VIDA E SUA ORIGEM, PODE DEFENDER ISSO!!!

Nisso, sua pressão já está 14X10.

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No dia de manifestações à favor do governo você usa vermelho sem querer. E só percebe isso às 16h00 por que alguém fez uma piada. Eita. Antes, você foi almoçar, e o papo corre solto. Motivo: as manifestações do domingo, contra o governo e pró Impeachment. Estou sem celular e, sem fone de ouvido. Preferia ouvir o Sardenberg (!) a ouvir o que estava rolando na mesa ao lado.

O Chefe diz, calmamente, que estará com sua bandeira no domingo. Todos param pra ouvir e concordam. E ele diz que não fara isso por ele, mas pelos jovens, pelos que virão. E lá vem o puxa-saco, mais jovem, óculos modernete, 30 anos no máximo, e começa a concordar com a posição do chefe, com um discurso pseudointelectualizado.

Disse o rapaz: “Não é que o PT tenha inventado a corrupção, mas a corrupção começa no Estado. E como o PT tende à centralização e à participação maior do Estado, vai haver mais corrupção em seu governo”. O chefe, não ouviu, pois continuo com seu discurso patriótico. Não ouviu pois continuou com comendo e bebendo sua cerveja. Mas o menino tem futuro.

A frase do rapaz mostra sua confiança no liberalismo. Sem problemas, é uma visão de mundo que eu considero equivocada, mas ela existe e pessoas a defendem. Pela minha formação, entendo como sendo contraditória à posição do rapaz na sociedade, mas ok. Não tecerei críticas.

Mas o que me encabulou no momento – além de ter elevado meus índices de pressão – foi o erro grosseiro cometido: a ideia do Estado como um outro que paira sobre nossas cabeças. E mais do que isso: o Estado (e o público) como o outro da Sociedade (e do Privado). Como aponta Nico Poulantzas: os sujeitos indivíduos, em suas classes, são “unificados na universalidade política do Estado-Nação”. O Estado conforme conhecemos é neutralizado pela ideologia-amálgama que “unifica” a sociedade, dando a entender que este é uma classe autônoma da sociedade, controlada apenas pelo partido que está no poder.

Ora, o Estado é representação da sociedade: o poder continua dominado por uma casta da sociedade, que o manipula para continuar no poder – político e econômico. Há, evidentemente, divisões entre as elites. Mas elas se “unem” quando “o bicho pega” e as bases de manutenção do poder de poucos sobre muitos ameaça ruir.
Evidente que o PT não representa ou representou nenhuma ruptura dessa sociedade. Pelo contrário: combinou bastante, em sua estratégia de hegemonia, com nossas elites, as mais arcaicas, inclusive.
Mas algo não “orna” com o PT: o mesmo empresariado que aparece contra o atual governo e compôs com o Governo Lula, é o que chorava durante o governo FHC pela deterioração do Parque Industrial brasileiro. Mesmo assim, nunca gritaram pela saída do então presidente. É preciso olhar para o Estado e enxergar-se em tudo.

As mulheres e mais humildes – ou pelo menos não tão eloquentes – da mesa ficaram lá, no seu canto, com suas opiniões. Falavam mais baixo, ou até falavam sobre outras coisas.

Não pode haver nenhuma rachadura.

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Evidentemente que um blog não permite muitas trocas de ideias. Mas as trocas estão difíceis: em qualquer grupo que entro sou chamado de petista (NÃO SOU, sou de esquerda) e as pessoas se recusam a argumentar, com um mínimo de lógica, seus pontos de vista. Sendo assim, prefiro escrever no blog e postar no Facebook, apenas se alguém quiser saber,  realmente, minha opinião. Quem quiser trocar uma ideia, e tomar uma cerveja, mas disposto a argumentar sem “mimimi” e sem querer me ligar a qualquer partido, ok. O convite está feito.

Sobre a Virada Cultural 2013


Aos meus amigos que não foram e para você que ficou com medo, após os problemas divulgados.

Sou um frequentador da Virada Cultural, fui em todas as edições (ok, talvez tenha perdido uma apenas…). E, apesar dos problemas, pretendo ir mais vezes a esse evento, que possibilita, ainda que por 24 horas, alguma apropriação do espaço urbano.

Existe uma crise (?) urbana, clara. Na metrópole, a apropriação nos é negada, todos os dias. Convertemo-nos em parte do fluxo diário do circuito de reprodução do Capital e as ruas fazem parte da nossa vida exclusivamente como o local onde pisamos, embora indiretamente. Sim, estamos sempre de passagem, dentro de nossos automóveis ou no transporte coletivo, este tão maltratado e mal usado.

Nossos espaços de sociabilidade pouco ou nada incluem a rua. E quando é o centro, a coisa se agrava. O urbanismo é uma violência em qualquer lugar do mundo, mas uma violência que muitas vezes aceitamos em prol de certa “civilidade” burguesa. Porém o urbanismo em São Paulo esconde, por trás do aparente caos, a perversidade da lógica de nossa desigualdade. O espaço é violentamente demarcado, constituindo áreas de segregação. O espaço quando não é utilizado como passagem, percorrido e não usado, é retalhado em enclaves fortificados para possibilitar o consumo ou o habitar moderno.

Pois bem: num contexto de apropriação rara, em detrimento do consumo, estar na rua sem ser de passagem ou sem estar mediado pela mercadoria passou a não fazer parte de nossas vidas. Nossas relações com os outros e com a cidade empobreceram, marcadas pelo tempo do relógio, e este marcando o ritmo da produção. E não falo das relações com o espaço, com os lugares, mas também com o outro. “O que queremos?”, como diz a tirinha famosa no Facebook, numa generalização típica de nossa modernidade, “JUST FUN”, responderia. Entretenimento, alívio. Lefebvre aponta que o cotidiano ocupou o lugar das colônias da Era Mercantil. Com isso, vem aprimorando a formação de gerações que leem mais, desde que seja a leitura de hypertextos; ouvem mais música, desde que seja jogando um videogame ou lendo um livro – sem saber identificar um contrabaixo; assistem mais filmes, desde que seja uma experiência rápida e que fique o gostinho de “quero mais” – sempre abastecido pelas franquias hollywoodianas. Formou-se uma geração de insatisfeitos: se pensarmos no desejo, como posto por Freud, mas inconformados, se pensarmos na ideia de revolução comunista, nos termos de Marx, e do cotidiano, nos termos Situacionistas. Ambas, praguejando contra a alienação.

Meu entorno? Não me importa. O Contexto? Repudio. Just fun baby, just fun.

No Centro de São Paulo, percebemos a luta por apropriação em vários de seus cantos, ruelas, becos. A luta pela moradia e a violência da propriedade contra essa luta. Prédios, centenários ou não, ocupados por gente da periferia do sistema: no Centro, eles estão na nossa cara. Até mesmo o urbanismo no centro proporcionou uma arquitetura um pouco mais humana, com calçadas, outrora utilizadas para os footings da elite, mais adequadas àqueles que querem andar a pé. Os motoristas de automóveis acabam respeitando mais os pedestres no dia a dia, talvez pelo medo da violência – será mesmo o Centro mais violento? – ou pela grande quantidade de usuários do transporte coletivo andando pelas ruas. Mas a apropriação do espaço ou mesmo um urbanismo mais humanista – se é que é possível – estão submetidos à circulação do capital e à reprodução das relações sociais de produção.

Tudo isso para dizer que eu estive na Virada Cultural de 2013, mais uma. Nessa, fui relutante, problemas pessoais e também a falta de entusiasmo de amigos colaboraram para que eu não quisesse ir esse ano, somado, é claro, pelo fato do meu gosto musical não ter sido muito atendido nesse ano. Problemas contornados, um casal de amigos empolgado – achava, e comprovou-se quando os encontramos – e resolvi ir.

Tive um celular furtado. Não percebi o furto, obviamente, embora saiba quando foi (“maldito” show do Sidney Magal, e nossas esposas nos achando intolerantes, não é mesmo). Vi brigas, como em qualquer evento desse porte. Sensação de violência no ar? Medo? Desejo de nunca mais voltar, “aquilo não é para mim”, coisa e tal.

Não.

Para mim ficou a ilusão, ou desejo, ou possibilidade (realizada, talvez) de apropriar-me do Centro. De dizer que as ruas são minhas. De assistir a um show pelo telão na praça Ramos, junto às figuras da madrugada, aos Napoleões da boemia dançando, mendigos dançando, hipsters da Zona Oeste dançando, juntos!

Sensação de tomar uma cerveja e bater um papo em plena Praça da República, com a galera passando, falando alto, curtindo, ouvindo música. Uma grande balada a céu aberto. Com tudo de bom e ruim que uma balada tem: corpos entrelaçados, mãos dadas, o sexo latente, o som e a loucura das luzes piscando, a alegria do álcool, a violência do álcool, pessoas que passam mal, pessoas que se excedem das mais diversas maneiras, a repressão da polícia, os trombadinhas.

TUDO.

Claro que preferia ainda ter meu celular (será). Claro que não concordo com as agressões e  mortes – e me solidarizo com a família das vítimas (uma, diga-se de passagem, foi por overdose o que, infelizmente, faz parte de qualquer balada… that´s rock´n´roll baby). Mas tudo foi menos violento que toda a lógica que nos impede a apropriação do espaço em/e de nosso cotidiano. Sim, ganhos e perdas. Eu perdi um celular. Um garoto perdeu a vida. Como acontece em todos os finais de semana nessa cidade, mas bem longe dos nossos narizes, em eventos que muitos de nós não participamos.

Fui muito feliz nessa madrugada, mesmo tendo visto o que não gostei, mesmo não tendo assistido nenhum muito marcante, memorável. Mas beber cerveja com amigos, andar com minha gata pelas ruas do centro: impagável. Não vacilarei da próxima. Nem com o celular, nem em pensar em ir ao evento.

Acho que a possibilidade de apropriação, ainda que momentânea, causa muito estranhamento, mais até que a diferença de classes. Que todos meus amigos venham ano que vem! Se não fizermos o “circuito” da Virada, que possamos aproveitar para usar as ruas de outra forma.